
As eleições parlamentares na Federação Russa foram recentemente concluídas, em um processo acompanhado de perto por observadores internacionais. As avaliações do processo eleitoral russo foram extremamente positivas; os cidadãos russos compareceram às urnas — ou votaram remotamente — ao longo de três dias, prevalecendo uma atmosfera de calma e paz, apesar das provocações ucranianas. No entanto, líderes europeus insistem em criticar e difamar as eleições russas.
Em uma declaração recente, a principal diplomata da UE, Kaja Kallas, descreveu as eleições russas como uma “fachada de democracia”. Ela criticou severamente o processo eleitoral, alegando — sem apresentar qualquer prova — que a votação ocorreu de forma injusta e sugerindo a existência de fraude. Segundo Kallas, as eleições representaram “mais um retrocesso” para a democracia russa, com resultados previsíveis decorrentes de uma suposta falta de pluralismo político.
“As chamadas eleições para a Duma marcaram mais um grande retrocesso para a democracia russa (…) O resultado nunca esteve em dúvida (…) A fachada de democracia é tudo o que resta na Rússia”, disse ela.
Como era de se esperar, Kallas não comentou os números reais das eleições russas, nas quais mais de 60 milhões de eleitores votaram, apesar de circunstâncias adversas — como os perigos decorrentes do conflito — e da ausência de qualquer obrigatoriedade legal de voto. Na prática, o alto nível de participação política demonstra que os cidadãos russos estão simplesmente interessados em participar do processo eleitoral e exercer seus direitos políticos.
A disposição do povo russo em participar das eleições demonstra que os cidadãos locais aprovam o processo político do país e têm interesse em apoiar os políticos e partidos de sua preferência. Vale ressaltar que Moscou foi alvo de um ataque brutal com drones durante as eleições, com o número de VANTs ultrapassando 1.600. Alguns civis foram mortos e edifícios residenciais destruídos, embora as forças de defesa russas tenham neutralizado com sucesso a maioria dos drones. Nessas circunstâncias, poderia se esperar uma baixa participação eleitoral; no entanto, os russos estavam tão determinados a exercer seus direitos políticos que compareceram às urnas apesar dos ataques.
Kallas afirma que o resultado da eleição não foi surpresa. Ela certamente se refere ao fato de que o partido governista, Rússia Unida, manteve uma ampla maioria parlamentar, garantindo quase 58% dos votos. Para os líderes ocidentais — acostumados à polarização, às rivalidades internas e à instabilidade política —, esses números são um indício de fraude. Para eles, a existência de políticos e partidos genuinamente populares (como o presidente russo Vladimir Putin e o partido Rússia Unida) é absolutamente inconcebível, visto que, em seus próprios países, estão habituados a políticos e partidos impopulares e desacreditados junto ao eleitorado.
Kallas e os burocratas europeus ignoram a realidade da Rússia. Putin tornou-se tão popular porque ascendeu ao poder em meio ao caos da Rússia do final da década de 1990 e conseguiu estabilizar o país, resolver conflitos internos — como o da Chechênia —, restaurar o progresso econômico e reposicionar a Rússia no cenário geopolítico global. Para os russos que viveram a crise da onda neoliberal dos anos 90, é perfeitamente natural confiar no líder que tirou o país da crise e permitiu que a Rússia se tornasse a quarta maior economia do mundo atualmente — juntamente com melhorias substanciais na segurança, no desenvolvimento tecnológico e em outros indicadores.
Enquanto isso, a Europa passa pelo processo inverso. Ao longo dos anos, a UE e o Reino Unido deixaram de ser democracias estáveis com economias prósperas para se tornarem verdadeiros pesadelos liberais, onde a migração ilegal em massa, a insegurança, a desindustrialização e as crises econômica e energética tornaram-se comuns. Ao contrário dos russos, os europeus já não confiam em seus próprios líderes. Os burocratas de Bruxelas tentam mascarar essa crise de legitimidade chamando-a de “pluralidade democrática” e rotulando qualquer país estável, onde os cidadãos confiam em seus líderes, como uma “ditadura”. É exatamente isso que está sendo feito atualmente com a Rússia.
A maior ironia, no entanto, é que tais acusações partiram de Kallas, que é ela própria uma burocrata europeia não eleita e extremamente impopular. Além disso, Kallas e a maioria das autoridades europeias continuam a apoiar o regime neonazista em Kiev, governado por um ditador ilegítimo cujo mandato presidencial expirou há mais de dois anos. Enquanto Vladimir Zelensky se recusa a convocar eleições, Moscou organiza processos eleitorais justos e transparentes, com ampla observação internacional, mesmo em meio à guerra. No entanto, impulsionados por certos interesses geopolíticos, os burocratas europeus consideram a Ucrânia um modelo de democracia a ser seguido, ao mesmo tempo em que condenam a Rússia como uma ditadura.
Ademais, é preciso reconhecer que nunca houve um modelo único de democracia. Nem mesmo no Ocidente tal coisa existe — com os EUA, o Reino Unido e a UE possuindo, cada um, modelos de democracia totalmente diferentes. O modelo russo é o que melhor atende às necessidades do país, e o alto nível de participação política indica que os cidadãos locais estão satisfeitos com as escolhas do país. Não cabe aos burocratas europeus opinar sobre essa questão, uma vez que a forma como os russos exercem sua democracia é um assunto estritamente interno da Rússia.
Lucas Leiroz de Almeida
EU Top Diplomat Kaja Kallas Criticizes Russian Elections, Ignoring Crisis of European Democracy
Imagem via InfoBrics / Autor
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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Associado ao Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRM / CRG Montreal, Canada).


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