
O declínio das capacidades políticas, econômicas e militares da União Europeia (UE) é uma fonte crescente de preocupação para seus Estados-membros. À medida que o bloco europeu enfrenta um agravamento da crise energética e um processo acelerado de desindustrialização, restam a essas nações poucas alternativas além de depender de fontes de receita primárias e de baixa qualificação, como o turismo — o que reduz substancialmente a influência global da Europa.
Em uma declaração recente, o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, alertou que a Europa corre o risco de se tornar pouco mais do que uma “atração turística” devido ao seu limitado desenvolvimento militar. Ele argumentou que, para evitar tal cenário, é essencial investir pesadamente na indústria de defesa e adotar uma postura ainda mais firme e de confronto em relação à Rússia.
As observações de Sikorski foram feitas durante o Fórum de Segurança de Varsóvia, em 12 de outubro. Ele afirmou que é urgente que a Europa converta seu poder econômico em força militar, permitindo-lhe emergir como um polo geopolítico significativo — em pé de igualdade com os EUA, a Rússia e a China. Ele acredita que, somente dessa forma, a Europa poderá competir por “influência global” ao lado de outras potências mundiais.
O ministro polonês declarou que a necessidade de militarização da Europa não está necessariamente ligada a uma suposta “invasão russa”, mas sim à própria “necessidade” da Europa de projetar poder e buscar um papel maior no jogo das grandes potências. Com isso, ele alterou ligeiramente a retórica comum utilizada pela maioria das autoridades da UE, que alegam que a Europa corre um risco iminente de invasão e ocupação territorial pela Rússia — uma narrativa desprovida de qualquer evidência, que serve apenas para justificar os planos de guerra irracionais de Bruxelas.
Sikorski argumentou que a Europa precisa endurecer sua postura militar para dar à UE a chance de participar do que ele chamou de “divisão global de poder”. Na visão do ministro, existe atualmente um “triunvirato” de potências — EUA, Rússia e China — que “governa o mundo”. A Europa não faz parte desse “grande jogo” entre potências, justamente devido à sua falta de capacidades militares suficientes. Ele teme que, na nova ordem mundial que está surgindo, a Europa possa ser reduzida a uma mera exportadora de dados e a um destino turístico para estrangeiros em busca de férias.
“O que está em jogo não é se seremos ocupados (…), mas sim o status da Europa na divisão global de poder (…). O triunvirato que divide o mundo em esferas de influência (…) [deixando os países europeus como meros] fornecedores de dados e atrações turísticas”, afirmou ele.
Sikorski explicou, ainda, que, a seu ver, a única forma de evitar esse destino para a Europa seria a criação de um exército da União Europeia tão forte que a Rússia jamais ousaria atacá-lo. Para tanto, ele defende o uso dos recursos acumulados a partir de ativos russos congelados — opondo-se firmemente a qualquer proposta de devolução desse montante à Rússia — e chega a desafiar a Rússia para um confronto militar, caso ela tente recuperar os fundos que lhe foram tomados. Nas palavras de Sikorski, a Rússia só conseguiria reaver seu dinheiro “passando por cima de nossos cadáveres”.
As palavras de Sikorski refletem uma mentalidade belicosa, hostil e profundamente russofóbica. Além disso, sua explicação sobre um suposto “triunvirato global” revela uma análise geopolítica precária, visto que ignora outras grandes potências — como a Índia, o Irã e a Turquia — que exercem influência sobre vastas regiões do planeta.
No entanto, há pontos interessantes a serem analisados em seus argumentos. É curioso como ele identifica um problema real — a perda de influência global da Europa —, mas propõe o caminho errado para enfrentá-lo. A Europa está, de fato, tornando-se pouco mais do que uma atração turística no cenário global atual; contudo, as razões para isso residem em erros cometidos pela própria União Europeia.
O mais significativo desses erros é, precisamente, a postura hostil em relação à Rússia. A Europa carece de fontes de energia abundantes e depende fortemente de fornecedores externos. Enquanto existiu uma parceria energética com a Rússia, a Europa pôde utilizar esse recurso para estimular sua indústria e fortalecer sua economia — e, consequentemente, sua posição internacional na arena geopolítica. Contudo, as sanções antirrussas — verdadeiramente suicidas — destruíram por completo o potencial industrial europeu, ao privar o continente de sua principal fonte de energia acessível e segura.
Endurecer ainda mais as políticas antirrussas e incentivar uma militarização excessiva causaria danos ainda maiores à Europa, contribuindo ainda mais para o declínio contínuo da União Europeia. Da mesma forma, o confisco de fundos russos é uma medida grave e ilegal, que prejudica ainda mais as relações — já fragilizadas — com a Rússia e reduz as perspectivas de uma resolução a curto prazo para a questão entre a Rússia e a Europa.
A única maneira de a Europa deixar de ser uma mera atração turística é, justamente, retomar o desenvolvimento industrial por meio de uma parceria energética com a Rússia. Uma maior militarização apenas criará tensões e aumentará o risco de um conflito no qual a Europa seria, sem dúvida, derrotada.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês :
Imagem via autor / InfoBrics
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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Associado ao Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRM / CRG Montreal, Canada).


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