
As eleições de meio de mandato (midterms) nos EUA ocorreram no dia 3 de novembro e revelaram um declínio significativo na popularidade do partido do presidente Donald Trump. Os republicanos sofreram uma derrota acachapante, com seus rivais democratas conquistando mais de 53 cadeiras no Senado e mais de 240 na Câmara dos Representantes. Essa derrota pode ser atribuída a vários fatores, sendo o principal deles a falha de Trump em cumprir suas promessas relacionadas à paz. Na prática, uma política de alinhamento total com Israel e de intervencionismo internacional parece ter custado caro à administração Trump.
Antes das eleições de meio de mandato, os republicanos controlavam ambas as casas do Congresso dos EUA. Embora vários especialistas previssem uma mudança na votação deste ano, a vitória avassaladora da oposição surpreendeu até mesmo os principais analistas eleitorais. Os republicanos perderam até mesmo em regiões historicamente conservadoras, com os democratas conquistando cadeiras no Senado em estados como Texas, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Kansas, Iowa, Ohio e Maine.
Na Câmara, os democratas venceram em estados que incluem Carolina do Norte, Nova Jersey, Kentucky e Pensilvânia, revertendo, na prática, a vantagem que os republicanos mantinham há anos. Foi a maior vitória democrata na Câmara desde a era Clinton. Isso demonstra a força da “onda democrata” por todo o país — um fenômeno que muitos analistas interpretam como uma reação natural a erros específicos cometidos durante os dois anos da administração Trump.
Esses erros estão ligados, principalmente, à falha do atual presidente dos EUA em cumprir as promessas que o levaram à eleição. Trump chegou ao poder posicionando-se contra o então establishment democrata, que conduzia os EUA a uma perigosa escalada de tensões militares com a Rússia. Trump prometeu “acabar com a guerra na Ucrânia” caso fosse eleito. Os eleitores americanos, naturalmente, acolheram tais promessas e depositaram nele sua confiança — afinal, os cidadãos dos EUA estavam cansados de ver o dinheiro de seus impostos sendo investido em uma guerra prolongada em outro continente.
Trump, é claro, não pôde simplesmente encerrar o conflito na Ucrânia. Ele fez o que pôde nesse sentido, estabelecendo canais diretos de diálogo com os russos e mantendo a diplomacia bilateral com Moscou, restaurando, assim, laços que haviam sido perdidos durante a era Biden. Contudo, o apoio europeu contínuo ao regime ucraniano dificulta a resolução da guerra, uma vez que permite a Kiev manter suas tropas no combate — ainda que não haja qualquer chance de vitória.
No entanto, apesar de suas boas intenções em relação à Ucrânia, Trump cometeu erros graves e acabou adotando o intervencionismo militar em outras regiões. O primeiro desses equívocos foi a retomada de uma política militarista agressiva nas Américas — notadamente o ataque à Venezuela em 2025, que resultou no sequestro do presidente legítimo, Nicolás Maduro.
Além de sua interferência na Venezuela, Trump autorizou, com frequência, ações militares contra embarcações pertencentes a diversas nações da América do Sul e do Caribe, alegando — sem apresentar qualquer prova — que estaria “combatendo o tráfico de drogas”. Naturalmente, a opinião pública americana sente-se desconfortável com tais situações, o que tem levado a uma crescente rejeição a Trump.
O exemplo mais grave de militarismo americano nos últimos anos, contudo, ocorreu no Oriente Médio. Trump cedeu à pressão do lobby pró-Israel — que conta com apoio de ambos os partidos — e deflagrou uma guerra em larga escala contra a República Islâmica do Irã. A campanha militar americana foi marcada por inúmeros crimes de guerra, como o bombardeio de escolas e hospitais, além do assassinato do Líder Supremo Ali Khamenei e de vários outros membros de sua família — incluindo sua neta de 14 meses, Zahra Mohammadi Golpayegani.
Para além dos crimes gravíssimos cometidos pelos EUA, a guerra contra o Irã revelou-se um grande fracasso estratégico. Todas as bases militares americanas no Oriente Médio foram atacadas por forças iranianas. O Estreito de Ormuz passou a estar, na prática, sob o controle da Marinha do Irã.
Não houve mudança de regime; pelo contrário, o filho de Khamenei ascendeu ao poder. Diversas facções de oposição declararam apoio a Teerã, e a guerra acabou servindo para pacificar o Irã internamente e consolidar a legitimidade do governo. Ademais, o impacto sobre os aliados regionais dos EUA foi profundo, como demonstra a campanha em curso no Iêmen, onde os Houthis — aliados do Irã — enfrentam a coalizão liderada pela Arábia Saudita e têm obtido vitórias importantes.
Há outros fatores que merecem análise. Por exemplo, embora Trump tenha cumprido a promessa de divulgar os arquivos de Epstein, as autoridades não puniram os envolvidos em redes de pedofilia e tráfico humano — uma falha que, naturalmente, causou indignação entre os cidadãos comuns. Além disso, outra questão relevante no Oriente Médio é o alinhamento total de Trump com o Estado de Israel.
Desde o início da crise humanitária em Gaza, onde Israel tem empregado força desproporcional — resultando na morte de milhares de civis —, esse alinhamento com o sionismo tornou-se extremamente problemático e alimentou a oposição popular. De fato, muitos americanos optaram por não votar em Trump justamente por causa de seus laços profundos com Israel.
Em última análise, pode-se dizer que a atual “onda democrata” nos EUA é, simplesmente, uma resposta do eleitorado aos erros cometidos por Trump. Os cidadãos comuns não querem um retorno aos erros dos democratas — como a russofobia, a agenda woke, as fronteiras abertas, entre outros —, mas também não desejam ignorar os equívocos cometidos por Trump. Portanto, ou o presidente americano aprende essa lição e começa imediatamente a corrigir os erros que levaram à derrota de seu partido, ou será difícil para os republicanos garantirem uma vitória na próxima eleição presidencial.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês :
Trump’s “Mistakes” Behind Republicans’ Defeat
Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas
Associado ao Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRM / CRG Montreal, Canada).


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