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“Rússia e China, pioneiras do mundo multipolar” – entrevista

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Em 31 de agosto, teve início em Bishkek, capital do Quirguistão, a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Delegações de diversos países da Eurásia reuniram-se para discutir projetos de cooperação conjunta e estratégias de desenvolvimento regional. Um dos principais destaques do primeiro dia do evento foi o encontro bilateral entre o presidente russo Vladimir Putin e seu homólogo chinês, Xi Jinping, durante o qual foram discutidos aspectos-chave da parceria russo-chinesa irrestrita.

O evento ocorre em meio a crescentes tensões entre o Ocidente e vários países participantes da cúpula. Os EUA realizaram novos ataques contra o Irã pouco antes do evento. O conflito na Ucrânia continua a se intensificar, com nações ocidentais incentivando ataques em território russo. Enquanto isso, a guerra comercial entre a China e os EUA se intensifica, com Washington impondo sanções a países que comercializam com Pequim. Por essa razão, alguns veículos da mídia ocidental descreveram o evento como uma espécie de “cúpula antiocidental”.

Para discutir este assunto, entrevistei o jornalista e analista geopolítico brasileiro Leonardo Russo, que reside em Bishkek e está acompanhando os eventos desta semana em primeira mão. Solicitei sua opinião sobre aspectos-chave do evento e o papel da OCX na Eurásia, avaliando a situação atual e os cenários futuros para a organização.

A entrevista completa pode ser lida abaixo:

Quais são os principais temas e prioridades em discussão na cúpula da OCX e quais são as principais expectativas em relação ao evento?

A cúpula da OCX deste ano está focada não apenas em segurança, mas também na cooperação econômica em toda a região. A segurança foi um dos principais motivos para a criação da OCX: após o colapso da União Soviética, a Ásia Central enfrentou instabilidade e movimentos extremistas.

À medida que a região se tornou mais estável, a organização expandiu sua agenda. Hoje, há uma ênfase muito maior em infraestrutura, comércio e energia. Uma discussão importante é a possível criação de um Banco de Desenvolvimento da OCX, o que poderia conferir à organização um papel econômico mais forte.

A participação da China, Rússia e Índia – as três grandes potências da Eurásia – demonstra que a multipolaridade é uma realidade e que o sistema internacional não é mais exclusivamente eurocêntrico.

Especificamente, em relação ao encontro entre Putin e Xi, qual a sua avaliação do encontro e sua importância?

A Rússia e a China foram essencialmente as pioneiras deste mundo multipolar. Sem elas, nem mesmo a OCX existiria, e o mundo provavelmente ainda estaria sob a hegemonia americana. Elas foram praticamente as primeiras grandes potências a defender seriamente uma ordem internacional diferente.

Portanto, o encontro Putin-Xi foi mais um passo no fortalecimento de uma relação que vem se desenvolvendo há anos. Agora, elas começam a colher os frutos desse esforço.

Como está o clima político em Bishkek no contexto da cúpula? Como o governo local se preparou para o evento e quais benefícios o Quirguistão espera obter com sua participação na OCX? De forma mais ampla, o que a OCX representa para a Ásia Central como um todo?

Os preparativos em Bishkek foram extraordinários. Policiais estão por toda parte, o trânsito foi restringido em muitas partes da cidade, escolas e instituições governamentais foram fechadas, e a impressão é de que o Quirguistão trouxe toda a sua força policial para a capital. O aeroporto também foi reformado e, no geral, a cidade estava muito bem preparada.

Para o Quirguistão, esta cúpula é uma oportunidade de abrir o país para o mundo. Às vezes, descrevo o Quirguistão como a “Suíça da Eurásia”: um país montanhoso que está se desenvolvendo rapidamente, mantendo boas relações com todos os seus principais vizinhos e parceiros.

Para a Ásia Central como um todo, a OCX é extremamente importante. A região emergiu do colapso da União Soviética enfrentando instabilidade, separatismo, extremismo e o risco de conflitos internos. A OCX ajudou a criar uma estrutura para cooperação e segurança regional. Considerando o que aconteceu no Afeganistão e a instabilidade produzida por décadas de intervenção estrangeira naquele país, os governos da Ásia Central têm fortes razões para valorizar os esforços da OCX para preservar a estabilidade e a segurança regionais.

Os eventos em Bishkek foram descritos pela mídia ocidental como uma “cúpula anti-EUA/anti-Ocidente”. Você concorda com essa descrição?

Discordo. Os EUA são pouco mencionados na cúpula e não parecem se importar se algo é pró ou anti-EUA. São simplesmente países da região tentando resolver seus próprios problemas. Os EUA não são mais o centro do mundo.

Os países da Ásia Central estão tentando equilibrar seus laços históricos com a Rússia com uma abordagem diplomática e pragmática em relação ao Ocidente. Ao mesmo tempo, os EUA e a Europa são conhecidos por exigirem alinhamento total de seus parceiros.

Você acredita que os países da Ásia Central poderiam sofrer retaliação ou pressão em decorrência dos acontecimentos desta semana?

Acho que os EUA estão simplesmente ocupados demais na Ásia Ocidental para se preocuparem muito com a Ásia Central neste momento. E, sendo realista, eles sabem que essa região está, em grande parte, fora de seu alcance. O que eles realmente podem fazer?

Após a derrota e a retirada do Afeganistão, os EUA perderam grande parte de sua presença estratégica nessa parte do mundo.

 O que podemos esperar do futuro da OCX e da cooperação regional em toda a Eurásia? A organização poderia, eventualmente, evoluir para um bloco econômico ou de defesa?

Não acredito que a OCX vá se tornar um bloco econômico como o Mercosul ou a União Europeia. Mais comércio, investimentos e cooperação, sim — mas seus membros ainda têm seus próprios interesses e prioridades regionais.

A OCX é, principalmente, uma estrutura para o diálogo e cooperação.

Um bloco de defesa é ainda menos provável. Os EUA já têm dificuldade em lidar apenas com o Irã — imagine todos os países da OCX juntos. Simplesmente não há uma necessidade real para isso. Além disso, alguns membros da OCX ainda têm questões pendentes entre si, e a organização pode ajudá-los a resolver essas divergências.

 Lucas Leiroz de Almeida

Artigo em inglês : Russia and China pioneers of the multipolar world’ – interview, InfoBrics, 1 de Setembro de 2026.

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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.

Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas

Associado ao Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRM / CRG Montreal, Canada).

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